Eu queria conseguir escrever na velocidade dos meus pensamentos, mas sempre que pego numa caneta ou no teclado do computador, metade das coisas importantes que eu tinha pra dizer se escondem nos cantinhos do meu cérebro. É como brincar de pique-esconde com uma criança muito, muito esperta: você só vai encontrá-la novamente quando a brincadeira acabar, e aí já não tem mais graça. E, pra piorar, isso não ocorre apenas na hora de organizar os pensamentos numa folha de caderno ou no monitor... Acontece também na hora de falar com as pessoas, de dizer o que sinto, o que realmente penso, o que importa pra mim. Na hora de defender meus interesses, meus sentimentos, minhas idéias. Esse medo estúpido de falar o que não devo, de decepcionar as pessoas, de estar errada (mesmo tudo indicando que eu estou certa, bem certa). No final, quem se decepciona sou eu. Mente traiçoeira, que deixa que todas as palavras, letrinha por letrinha, se escondam nos lugares mais difíceis de achar.
A verdade é que eu viajei, passei um tempo longe do meu, digamos, habitat. Deixei pra trás, por apenas alguns dias, o meu mundo e, ao mesmo tempo, levei um pouco dele comigo. As lembranças das pessoas, dos momentos; as expectativas, os medos, as preocupações. E todos esses souvenires, muitas vezes, acabam dando um nó apertado que não se contenta em ocupar só a cabeça, mas vai pro coração: saudades (por mais piegas que possa soar). Tudo acaba tomando proporções um pouco maiores. Porém (e Deus sabe como eu odeio os “poréns”), um tempo depois eu voltei e descobri que aquele habitat que deixei pra trás já não me é tão familiar assim. Onde estão as coisas da forma que eu deixei (e que me forcei a imaginar estáticas durante o tempo que estive fora, mesmo sabendo que não seria assim)? Mudanças.
Talvez a pior parte desse tipo de mudanças – que acontecem na sua ausência – é a tendência de se deparar com elas na pior hora, de surpresa. É como ser atropelada por um trem silencioso, inaudível. Ninguém se preocupa em te alertar sobre o quão diferente as coisas serão (ou pelo menos não alertam claramente ou totalmente) antes que você chegue com a cabeça cheia daqueles souvenires disfuncionalmente potencializados pela distância, abra os braços e diga: "lar doce l... lar??".
Mudanças. Hora de encarar e aceitar, até que a vida se encarregue de dar o rumo certo às coisas novamente. E nesse ponto, depois de ser atropelada pelo trem, será que importa (tanto assim) o que eu disse ou deixei de dizer? O que eu ainda poderia ter a dizer, ou o fato de não dizer mais nada... Importa? Defender tudo o que está passando pela minha cabeça, falar tudo o que penso. Tem alguma serventia? Ou só iria retardar um processo de aceitação de mudanças?
Deixar a poeira baixar. É a única forma de enxergar os trilhos outra vez. É a única forma de dar o passo certo para mudar (ativamente, dessa vez) meu mundo.

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