Eu ainda dava os primeiros passos na leitura e escrita da língua portuguesa. Fui uma das primeiras da turma a começar a juntar as letrinhas e formar palavras, com uns 4 aninhos já conseguia ler meus gibis e livrinhos - demorando um século por página, claro - e escrevia cartinhas para a minha mãe que estava morando longe.
Então eu achava que já sabia. E tentava dar uma de sabichona com aqueles cadernos de receita do meio do século passado. Lá estavam palavras como "fôrno", "ôvo", entre outras, com essa grafia.
"Vovó... 'ovo' não tem acento!" - eu dizia me achando tão esperta!
E ela me respondia que, um dia, o ovo teve sim aquele chapeuzinho simpático. Eu me perguntava onde ele tinha ido parar. Quem teria autorizado sua retirada...?
E, então, quase 18 anos se passaram. 31 de Dezembro de 2008: é o último dia para usar o português escrito como eu aprendi na escola.
Ontem me peguei pensando nisso. Abri a gaveta da sala e vi o caderno de receitas da minha mãe. Imaginei que, quando eu tiver filhos, e eles quiserem mostrar que são espertos, vão dizer para a minha mãe:
"Vó, 'geleia' não tem acento!"
"Vó, o que são esses dois pontinhos em cima de 'linguiça'?"
Ah, português! Sentirei saudades...
(pelo menos a "saudade" não nos tiraram!)
